Rondônia se encontra diante de uma oportunidade singular: transformar parte de sua base mineral em uma plataforma de desenvolvimento econômico, tecnológico e industrial orientada à transição energética global. Em um contexto de crescente demanda por minerais estratégicos e elementos de interesse tecnológico, o Estado pode avançar de uma posição predominantemente exportadora de matérias-primas para um papel mais ativo em cadeias produtivas de maior valor agregado.
A discussão sobre minerais críticos ultrapassa o campo estritamente minerário. Trata-se de uma agenda que envolve soberania tecnológica, inovação industrial, infraestrutura energética, políticas ambientais e desenvolvimento regional. Países que compreendem essa dinâmica vêm estruturando estratégias para garantir o suprimento de insumos indispensáveis à fabricação de motores elétricos, turbinas eólicas, sistemas de armazenamento de energia, equipamentos eletrônicos avançados e diversas aplicações industriais de alta complexidade.
Entre os elementos de maior interesse estão neodímio, praseodímio, disprósio, lantânio e cério, amplamente utilizados na produção de ímãs permanentes de alto desempenho, baterias, catalisadores industriais e equipamentos de alta tecnologia. Esses materiais vêm assumindo papel cada vez mais estratégico na economia global em razão de sua importância para setores considerados fundamentais para o século XXI.
A relevância desse debate também decorre de um fator geopolítico. Atualmente, grande parte da cadeia global de terras raras encontra-se concentrada em poucos países, especialmente na China, que domina etapas críticas de separação, refino e transformação industrial. Em resposta a essa concentração, economias como Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Coreia do Sul e Austrália vêm buscando diversificar fornecedores e fortalecer cadeias de suprimento mais resilientes. Esse movimento abre uma janela de oportunidade para regiões capazes de oferecer recursos minerais, estabilidade institucional e capacidade de processamento.
Nesse cenário, chama atenção o potencial associado aos rejeitos da atividade mineral acumulados historicamente em áreas como Ariquemes, especialmente no entorno do Complexo do Jamari e da Mina Bom Futuro. Esses materiais, frequentemente associados a áreas com passivos ambientais históricos, podem conter minerais de interesse econômico, como cassiterita fina, zircônio, ilmenita, columbita e volframita. Estudos preliminares também apontam a possibilidade de ocorrência de minerais portadores de elementos terras raras associados a esses concentrados secundários, embora essa hipótese ainda dependa de investigações e caracterizações mais detalhadas.
Levantamentos técnicos preliminares indicam a existência de aproximadamente 200 milhões de toneladas de rejeitos potencialmente passíveis de reaproveitamento na região de Ariquemes. A relevância desse volume está associada não apenas à quantidade de material disponível, mas à possibilidade de recuperar recursos minerais já extraídos e depositados ao longo de décadas de atividade produtiva. Trata-se, portanto, de uma oportunidade que combina potencial econômico com princípios de reaproveitamento de recursos e redução de passivos históricos.
Projeções preliminares sugerem impactos econômicos expressivos para o Estado caso seja comprovada a viabilidade técnica, econômica e ambiental do reprocessamento desses materiais. Contudo, é importante destacar que tais estimativas dependem de validação metodológica, estudos detalhados e testes em escala piloto que permitam confirmar o potencial efetivo dos depósitos.
O ponto central da discussão é que Rondônia não deve limitar-se à exportação de insumos primários sem beneficiamento. Quando isso ocorre, parte significativa do valor econômico associado à cadeia mineral, incluindo empregos qualificados, arrecadação tributária e capacidade tecnológica, é transferida para fora do território. A verticalização parcial ou total dessas cadeias representa uma alternativa estratégica para ampliar os efeitos positivos da mineração sobre o desenvolvimento regional.
Para isso, torna-se necessário estruturar uma política pública orientada por critérios técnicos, transparência e sustentabilidade. Um primeiro passo seria a realização de um inventário estadual detalhado dos rejeitos e depósitos secundários, contemplando volume, localização, composição mineralógica, situação fundiária e ambiental, além de avaliação do potencial econômico. Sem essa base de dados, o planejamento de políticas industriais e ambientais permanece limitado.
Em seguida, é fundamental estimular o desenvolvimento de rotas de beneficiamento mineral no próprio Estado. Isso inclui a avaliação de tecnologias de separação gravimétrica, magnética, eletrostática e flotação, de acordo com as características dos materiais disponíveis. A implantação de plantas-piloto é uma etapa essencial para validar a viabilidade técnica, econômica e ambiental antes de qualquer expansão em escala industrial.
Outro aspecto crítico é o licenciamento ambiental e a governança do processo produtivo. A eventual presença de minerais associados a elementos naturalmente radioativos, como tório e urânio, exige protocolos rigorosos de monitoramento e controle, conforme a legislação vigente e as normas de segurança radiológica. O desenvolvimento de qualquer iniciativa nesse campo deve incorporar sistemas de rastreabilidade, monitoramento contínuo de solo, água e emissões, além de planos estruturados de gestão de riscos e recuperação ambiental.
Essa abordagem reforça um princípio fundamental: não se trata de expandir a mineração de forma indiscriminada, mas de consolidar um modelo baseado em controle técnico, responsabilidade ambiental e transparência institucional. O reaproveitamento de rejeitos pode ser compreendido, nesse sentido, como uma estratégia de economia circular, capaz de reduzir passivos históricos e simultaneamente gerar valor econômico e social.
A estruturação territorial dessa cadeia também deve ser considerada. Municípios como Ariquemes podem desempenhar papel central como polo de processamento mineral, enquanto Porto Velho pode atuar como eixo logístico, energético e institucional. Outros municípios, como Ji-Paraná, Jaru e Cacoal, podem integrar essa dinâmica por meio da oferta de serviços especializados, capacitação profissional, fornecedores e suporte técnico.
Entretanto, nenhum projeto dessa natureza se sustenta sem capital humano qualificado. A consolidação de uma cadeia de minerais estratégicos exige formação em áreas como geologia, engenharia de minas, metalurgia, química, engenharia ambiental, segurança do trabalho e gestão industrial. Instituições de ensino e pesquisa têm papel decisivo na criação de programas técnicos e tecnológicos voltados a essas demandas emergentes.
Nesse contexto, instituições como IFRO, UNIR e SENAI podem desempenhar papel decisivo não apenas na formação profissional, mas também na caracterização mineralógica dos rejeitos, no desenvolvimento de rotas tecnológicas de processamento e na construção de um ecossistema regional de inovação voltado aos minerais estratégicos.
Outro desafio fundamental diz respeito às etapas de separação, refino e transformação industrial. O debate sobre terras raras costuma concentrar-se na mineração, mas o principal gargalo global está justamente nas etapas posteriores da cadeia produtiva. É nelas que se concentra grande parte do valor agregado e da disputa geopolítica internacional. Participar dessas etapas é condição essencial para que Rondônia capture parcela significativa dos benefícios econômicos associados aos seus recursos minerais.
Para alcançar esse objetivo, o Estado precisa oferecer condições favoráveis à atração de investimentos, incluindo segurança jurídica, dados geológicos consistentes, projetos tecnicamente estruturados e governança institucional estável. A articulação com instituições de fomento, fundos estratégicos, centros de pesquisa e empresas nacionais e internacionais será determinante para viabilizar empreendimentos dessa natureza.
Naturalmente, os riscos associados a esse tipo de iniciativa são relevantes e devem ser tratados com rigor técnico. Entre eles estão a incerteza geológica, a variabilidade dos materiais, os desafios tecnológicos do beneficiamento, a volatilidade dos mercados internacionais e o risco de captura do valor agregado fora do território estadual. A mitigação desses riscos depende diretamente de planejamento progressivo, baseado em inventário, testes-piloto, escalonamento controlado e estruturas sólidas de governança.
Rondônia possui tradição mineral consolidada. O desafio atual consiste em avançar para uma nova etapa, na qual a mineração se articule de forma mais direta com inovação tecnológica, sustentabilidade e desenvolvimento regional estruturado. Isso implica não apenas extrair recursos, mas compreender e atuar sobre toda a cadeia de valor associada aos minerais estratégicos.
Os rejeitos acumulados ao longo da história da mineração no Estado podem, sob condições adequadas de estudo e viabilidade, representar uma nova fronteira de desenvolvimento. Transformá-los em insumos produtivos significa integrar conhecimento geológico, engenharia, tecnologia e governança ambiental em uma estratégia de longo prazo.
Mais do que uma possibilidade técnica, trata-se de uma decisão sobre o futuro do desenvolvimento regional de Rondônia e sobre o papel que o Estado pretende desempenhar na economia da transição energética do século XXI.